sábado, 17 de setembro de 2011

Xipe Totec -2

Revelação...
A primeira vez que vislumbrei a possibilidade de andar de novo foi em um dia de sol e céu azulíssimo. Estava deprimido pelo fato de não poder mais aproveitar um dia daqueles e com muita raiva de ver pessoas que andavam desperdiçando as inúmeras possibilidades de apreciá-lo. Pessoas sempre reclamam.
Como evitava ao máximo sair de casa para não ter que enfrentar esses ingratos, passava a maior parte do dia lendo ou assistindo televisão. Naquela manhã, ao ler o jornal, me deparei com a manchete que falava sobre pesquisas com células tronco: nelas, os cientistas conseguiram reabilitar a movimentação dos membros inferiores de ratos com a medula espinhal seccionada. Faltava pouco para que começassem a testar em primatas.
Movido pelo entusiasmo que a manchete me proporcionou, comecei a pesquisar sobre o assunto. Procurei inúmeros médicos e conversei inclusive com os cientistas responsáveis pela pesquisa. Todos incompetentes, não conseguiram completar a tarefa de aplicar aos primatas o que tivera funcionado com os ratos.

De cara nos estudos...
Decidi que era a hora de sair de casa. Passei a frequentar a faculdade de medicina de Lisar e eventualmente descobri uma maneira de religar o tecido da medula espinhal de maneira funcional.
O que acontece quando o tecido é reconstruído por células tronco é que as conexões não funcionam exatamente igual ao tecido original: as células simplesmente se conectam novamente, mas elas não se conectam nos mesmos lugares. A consequência disso é que o comando enviado pelo cérebro que antes fazia com que determinados músculos se contraíssem, fazendo com que a perna se levantasse agora fazem com que outros músculos se contraiam, resultando em um movimento completamente diverso fazendo com que a perna se abaixe, por exemplo.
Isso com um músculo é fácil de reaprender, agora tente reaprender com inúmeros músculos se contraindo de maneira diferente ao mesmo tempo. Como foi difícil reaprender a andar.
Ganhei prêmios e inúmeras propostas para a venda dos direitos de propriedade intelectual do meu método pelos países mais ricos. Não quis que minha descoberta fosse elitizada e abri a pesquisa e todas as minhas anotações procedimentais ao público. Esse foi meu erro.

Fetos...
Uma das maneiras de conseguir células-tronco era através da extração de tecidos dos fetos. Quando isso veio a público, uma discussão ética sem precedentes se iniciou. Desde onde posso me lembrar foi proibido utilizar células embrionárias para pesquisa, mas como apresentei resultados inquestionáveis na reabilitação de seres humanos a opinião pública ficou dividida.
Acabei sendo processado e condenado e tive que passar uma parte da minha primeira vida na cadeia. Lugar horrível.
Lá, fanáticos religiosos decidiram que meu trabalho não era respeitoso aos princípios do “Senhor” e meus companheiros encarcerados resolveram me transformar em um exemplo: organizaram uma rebelião e amputaram minhas pernas e minha mão esquerda com um pedaço de metal de corrimão mal afiado. Com um ferro em brasa queimaram meu rosto e meu olho direito. Arrancaram meus cabelos puxando-os com as mãos. Fiquei internado meses e então fui transferido para um regime penal aberto devido às necessidades de acompanhamento médico, impossíveis de serem atingidas dentro do complexo penitenciário.
Estava mais uma vez incapacitado.

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