segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Xipe Totec

Quando era jovem, fui atropelado por uma moto. Isso me deixou paraplégico e o fato de estar preso à uma cadeira de rodas sempre foi algo perturbador para mim: não bastassem as terríveis cãibras que me assolavam durante a noite, o fato de ter que utilizar fraldas e sondas e outras mazelas da minha condição, eu vivia em um país que não dava a mínima para aqueles que não podiam “trabalhar” e não existia rua em que pudesse me locomover de maneira autônoma.
Coloco “trabalhar” entre aspas porque para meus conterrâneos o único trabalho digno era o trabalho braçal.
Por anos fiquei nessa condição. Era visto como um pobre coitado ou um parasita, mas eu não sou do tipo que se conforma. Eu agi e hoje ando com qualquer corpo que queira. Andarei com o seu corpo se me aprouver.
Meu nome é Xipe Totec.

O começo...
Antes de explicar como andei novamente e senti a pele de um mortal me revestindo, antes de ter me tornado um imortal, preciso contar como era o contexto em que vivi.
Meu país, Lisar, nunca foi uma grande nação. Nunca existiu um real sentimento de unidade de seu povo. Nunca existiu um movimento de orgulho lisarense e, talvez justamente por isso, a consequência sempre foi uma predisposição para a dependência à algum país que fosse seu protetor, como se fosse seu cafetão.
O sentimento de individualidade sempre foi muito forte então a menos que você seja um cego, pobre, ou paraplégico não irá se importar com os problemas deles. E quando eu fiquei paraplégico senti na pele isso.
Acredito que era um cidadão comum, estudei e trabalhei como tantos outros. No dia que fui atropelado estava voltando do emprego. Distraído com a música que tocava em meus fones de ouvido, atravessei a rua sem perceber um entregador apressado pilotando freneticamente a sua moto.
Quando a moto me atingiu, a princípio não percebi o que tinha acontecido. Envergonhado pensei que tinha caído sozinho e me preocupei com meu player de músicas que tinha voado. Estava estatelado no chão, o rosto voltado para o céu noturno. Lembro que não estava nublado, mas também não era possível ver a estrelas no céu.
Me sentei e vi minhas pernas estranhamente retorcidas. Não sentia muita dor, quero dizer, não o suficiente para o estado em que elas estavam retorcidas. O cheiro de fezes chegou às minhas narinas. Desesperado tentei me por em pé: foi em vão.
O motoqueiro... Sorrindo, posso dizer que teve o que mereceu.

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